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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MaxiModa 2010

Por Syomara Duarte

No dia 20 de agosto de 2010 foi apresentado o terceiro Seminário de Marketing de Moda do Nordeste, o MaxiModa, idealizado e realizado por Márcia Travessoni e toda a equipe da 333 Propaganda. As senhas de apresentação do seminário foram expressas por Reinvenção, Recomeço, Renovação e Renascimento, claramente associadas a cada um dos palestrantes do dia. Entremeado por brindes, intervalos e participação de apoiadores, aconteceu com a mesma pontualidade e funcionamento das duas versões anteriores, louvável para uma cultura que naturalmente peca por excesso de desajuste nesses quesitos.
Platéia completa na sala número oito do Cine Iguatemi, apresentou-se Crib Tanaka, responsável pelo reposicionamento da marca Espaço Fashion e nos falou da experiência em transformar a loja em uma marca. O caminho percorrido mostrou um começo de conhecimento do produto e do cliente na busca de estratégias para que a relação da marca pudesse chegar a seu público por meio de lookbooks, catálogos e site que mostrassem uma qualidade superior e coerência de linguagem. Daí tudo bem, os conhecedores do processo podem verificar que essas metas são corretas ao ofício. Mas até aí o convencional e esperado transforma-se numa avalanche de mídias que Tanaka nos apresenta e conduz sua fala para que vejamos como essas maneiras convencionais de trabalhar o marketing se transformam no mundo desmaterializado da informação contemporânea. E nada de achar que essa maneira de encarar as novas mídias é apenas divertimento do mundo virtual. Elas têm base em pesquisas formais e estatísticas reais do funcionamento e do público que as acessa. De posse dessas informações a equipe de três membros revolve idéias e formas para levar o máximo e o melhor da informação, primeiro de maneira virtual, conquistando e estimulando a curiosidade e o desejo dos clientes, depois na realidade palpável dos produtos em lojas, vitrines e desfiles. Assim se dá a REINVENÇÃO do Espaço Fashion por Crib Tanaka.
Renato Kherlakian chega durante o segundo momento da manhã para contar o RECOMEÇO do jeans. Pioneiro no Brasil da década de 1970, ele tirou o melhor da descontração dos hippies no Rio de Janeiro e começou com uma loja de peças criadas artesanalmente e que já demonstravam uma versão de atitude em forma de moda. Atitude que marcou o jeans da ZOOMP, a marca do raio (símbolo da logomarca) que Kherlakian pôs no mercado de moda quando este ainda engatinhava no Brasil. Segundo ele, moldar o corpo da brasileira ajudou a reforçar a imagem da mulher, e essa imagem acompanhou sua marca por 32 anos, quando a vendeu. Com a venda da Zoomp, Renato vendeu uma das marcas mais lembradas pelo trabalho de modelagem (vendia números intermediários, algo um tanto raro para roupas), simplicidade e qualidade das peças. Mostrou um vídeo de 25 minutos, realizado para comemorar os 25 anos da Zoomp, no qual figuram nomes da moda brasileira, cada qual com suas memórias quanto à marca. Outro nome que criou foi mostrado nesse vídeo, a Zapping, derivada da Zoomp e que fazia menção ao ato de zapear por controle remoto. Ensaiou apresentar seu novo trabalho e mostrou algumas peças em jeans, mas não desenvolveu em detalhes, talvez em parte pelo contrato de venda da Zoomp, que pregava um intervalo em possíveis marcas que fizessem concorrência à que fora vendida. Aguardaremos as novidades propostas pelo mestre do jeans, que marcou a história da moda brasileira nesse setor.
A vinda de Alexandre Birman na tarde de palestras nos mostrou em palavras e imagens o dinamismo desse jovem empresário, atento à história de suas marcas e às novidades trazidas pela RENOVAÇÂO constante no pensar. Começou pela conhecida Arezzo e confessou que a escolha do nome foi ao acaso, utilizando o mapa da Itália e escolhendo uma das cidades. Nascida como empresa familiar, a Arezzo partiu para a terceirização após expandir, e em um momento posterior teve sua fusão celebrada com a Schutz, marca criada por Alexandre. A Schutz foi criada previamente para desenvolver produtos masculinos, para logo depois focar no público feminino. Com o desenvolvimento da marca, Alexandre nos diz que ampliou suas possibilidades a partir de pesquisas formais (novamente a ciência dá o tom ao mercado fashion durante o seminário), um forte trabalho de branding e investimento voltado para a área de comunicação. Suas campanhas têm a qualidade presente na Arezzo, que investiu no trabalho com artistas brasileiros de renome, com o diferencial de que foca em um público um tanto mais ousado. As lojas estão ganhando espaço nas ruas e shoppings refinados de capitais e levam a imagem previamente rotulada de “temporary stores” (lojas temporárias). A composição foi marcante e significativa para tornarem-se definitivas: pé-direito alto, interior banco, expositores cúbicos brancos, iluminação teatral e a presença de diversos painéis com vídeos projetados. A comunicação visual da fachada marca pela simplicidade e destaca o número do ponto em letras maiores e vermelhas, bem como o nome da rua, o nome SCHUTZ e o “rótulo” temporary store. Sucesso de público, o lançamento de cada uma das unidades primou por um forte trabalho de promoção com formadores de opinião, socialites ou blogueiras, mostrando a abertura ao novo e ao diferente. Essa experiência explicitada por Alexandre rendeu ainda outro fruto: a marca Alexandre Birman, voltada ao luxo e ao diferenciado, possui representante em Fortaleza e já conta até com fala no cinema e presença nas lojas de departamento americanas (com previsão para viajar também às vitrines européias), provando que embora custe ousar, esse é o caminho aprendido com a Arezzo e a Schutz. Afirma sabiamente que empresa familiar só vale a pena com estudo, trabalho e talentos reais, não por afinidades consanguíneas. Na totalidade, a apresentação demonstrou a coerência de um trabalho empresarial de equipe, sincronizado com o presente, aberto ao futuro e às mudanças que o acompanham.
Fim de tarde e Glória Coelho chega acompanhada com um de seus assistentes, este responsável pela criação da marca Carlota Joaquina. Pudemos ver a jovialidade em duas vertentes: na figura de Diego e no humor e descontração de Glória. Ela começou de uma maneira convencional, apresentando o trabalho diário e contínuo de uma marca para materializar criações: processo criativo, tabelas, fórmulas e cronogramas. Auxiliada na apresentação por Diego, afirmou ser esse o trabalho encomendado e realizado por uma consultoria, e experimentado coleção após coleção, até atingir um patamar de afinação necessária para reverter lucros e agradar clientes. Entre palavras e fórmulas, dá conselhos que pode até desorientar alguns desavisados, mas para um ouvinte mais atento diz por entrelinhas: só faça se realmente amar e souber que o caminho pode ter receitas, mas não é tão fácil. Afirma que teme pela carreira de seu filho, que cria moda desde os doze anos, mas acredita também que ele esteja nesse caminho porque realmente gosta o ofício. E entre conselhos, opiniões, críticas (depõe claramente contra a alta quantidade de impostos sobretaxando as máquinas do parque industrial brasileiro, desfavorecendo as confecções e o desenvolvimento da qualidade dos produtos) e sérias brincadeiras (adepta confessa da astrologia e de conhecimentos cabalísticos e filosóficos), Glória também nos regala com o conteúdo de seu último desfile, claro, limpo e com influências declaradas no design de automóveis, parceria realizada com a empresa BMW, que colocou um veículo na passarela. Plissados, volumes e plumagens fazem referências às formas automobilísticas e arquitetônicas, fractais e pássaros. Fã declarada de Paul Poiret e Madeleine Vionnet, Glória demonstra familiaridade e talento com a modelagem e declara que mesmo que não se conte com uma boa modelista, deve-se investir na formação desta, ensinando e aprendendo. Percebe-se uma fase de RENASCIMENTO em sua trajetória, fortalecida por um desfile propositalmente branco (na idéia de que o somatório das cores, o branco, consumiria menos energia do planeta) com toques ousados de calçados exclusivos que comunicam uma vontade de conexão com a atualidade dos avatares: uma capa em cor vestindo a real forma do sapato escolhido. Com o conselho de que só se comunica com uma autoconfiança desenvolvida, Glória Coelho anuncia seus próximos movimentos voltados para a exposição do acervo com peças de desfiles posteriores, cuidadosamente colecionados e a publicação de um livro contando sua carreira.
Com o desejo de que o MaxiModa continue sua missão de trazer anualmente informações que alimentem a cadeia produtiva da moda, fica a mensagem de que o evento apresenta clara maturidade e ajuste na programação e na escolha dos nomes e das marcas, unindo na platéia uma diversidade de profissionais de moda, publicidade, jornalismo, educação, empresários e representantes de instituições que apóiam e desenvolvem o setor.

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